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O que (não) tenho lido

No segundo semestre de 2009 eu peguei uma mania uó que nunca havia em acometido antes: começar a ler livros e não terminá-los. Antes disso, eu tinha um bushido muito rígido com esse negócio de leituras: comecei, tenho que terminar, questão de honra. É ruim? Dane-se, quem mandou pegar pra ler? Agora acaba. Minha única quebra do código samurai de leitura havia se dado no terceiro ano do colegial com A montanha mágica, de Thomas Mann. Peguei o livro na biblioteca da escola em três ocasiões diferentes, comecei de novo, de novo e de novo (essa é outra regra do código: se eu abandono o livro por mais de uma semana, tenho que reler tudo) e em cada uma delas avancei um tantinho a mais do que na outra. Mas nem rolou de chegar ao fim. Gente, eu curtia o tiozinho italiano que era filósofo e o primo internado até que não me desagradava, mas não dá pra encarar o Hans Castorp, dá vontade de dar um tabefes na cara do sujeito (ou nas páginas do livro). Conseguiu vencer Bento Santiago no meu top de protagonistas nojentinhos-filhos-de-vó. Mas juro, juro, um dia compro esse livro e leio duma tacada só. Curioso é que dizem que as outras obras do Mann são muito boas. Mas não poderei chegar a elas sem ultrapassar a montanha. Será como um harakiri de brinks.

Agora lembrei: eu também nunca terminei As crônicas de Nárnia. Mas, deuses, me sinto TÃO HEROÍNA por ter conseguido passar da página 300 da ladainha do C. S. Lewis que esse eu nem coloco na lista de pecados. Tolkien, aquele ali você não deveria ter convertido, sério. Seria muito melhor escritor sem tentar catequizar a cada parágrafo. Mas pra não dizerem que eu sou uma antipática sem remédio, aviso que naquela versão grossona do livro, com a capa do Aslan pegando fogo (ou algo assim), há, nas últimas páginas, um ensaio bastante interessante sobre como escrever para crianças. Deve ter a dose de patetice costumeira do Lewis no negócio, mas me lembro de ter gostado muito dessa parte.

Mas voltando ao meu pecado de incompletude de leituras, tudo começou com, pasmem, Belas Maldições. Eu sei, eu sei, peccavi. Gaiman e Pratchett são coisas lindas do papai do céu, mas empaquei no livro. Mais por falta de tempo que por qualquer outra coisa, claro, que a história é hilária, mas chegou num ponto em que eu resolvi que não seria daquela vez que eu riria até a morte. Depois foi edição comemorativa super bem-feitinha (e baratíssima) de Cem anos de solidão que saiu pela Associação de Academias da Língua Espanhola. Na introdução, o livro traz uns ensaios muito bons do Vargas Llosa e do Álvaro Mutis sobre a masterpiece do García Márquez e eu estava adorando descobrir que não morro de nojo de ler em espanhol quando, pluft, larguei o livro de lado. Nem sei por quê. Ops, até sei, lembrando agora, mas, bah, motivo nenhum é bom o suficiente para a gente se separar de Gabo e dos pirados dos Buendía. Depois disso eu li alguns por inteiro e acabei voltando pra coleçãozinha de livros que inspiraram filmes no ano passado e comecei Sua resposta vale um bilhão, do Vikas Swarup. E esse eu tenho um motivo super digno para ter abandonado: o livro é tão, mas tão visceralmente ruim que eu interrompi a leitura bem no início, só para começar tudo de novo fazendo anotações, no intuito de resenhá-lo como uma das piores coisas que já li na vida. Sério, farei isso em breve. Não vi o filme, mas fico pensando com meus botões: como foi que conseguiram melhorar aquilo e fazer um roteiro que levou Oscar? Mis.té.rio.

Li mais alguns por inteiro e acabei abandonando, na viagem de férias, minha tentativa de releitura de Persepólis (não vi o filme, comprei a HQ e nã entendi o hype até hoje, me decepcionou. Diretório Central dos Estudantes do Irã demais pro meu gosto), outra releitura de um dos meus livros favoritos na história do universo, O jardineiro fiel, e não tive pique para a nova biografia do John Lennon. Que decepção comigo mesma, viu, eu deveria me estapear.

Well, no fim das contas, o que eu me lembro de ter lido por inteiro no ano passado foi:

Seis contos da Era do Jazz e outras histórias (F. Scott Fitzgerald) - Bem legal, apesar de eu ter morrido do coração ao ler o conto do Benjamin Button, que pouco tem a ver com o filme. Usaram só o esqueleto mesmo e, se alguém quer saber minha opinião, deixaram para trás todas as boas piadas. O filme é bem aquilo que acontece quando o sigificado de adaptação é esticado até os últimos limites. Os contos me agradaram, mas não me deixaram, assim, de boca aberta. Quero muito ler os romances do sujeito.

Umbigo sem fundo (Dash Shaw) - HQ impecável. Poderia também se chamar jab de direita ou coisa do gênero.

O espinafre de Yukiko (Frédéric Boilet) - Outra que meu deu uma dimensão completamente diferente tanto das HQs adultas quanto do mundo dos mangás. O traço do desenhista de Death Note ganhou um rival no meu panteão de prediletos.

Retalhos (Craig Thompson) - Autobiográfica, assim como O espinafre de Yukiko, foi outra que me ganhou em tudo: o modo de contar a história, a delicadeza, o traço, o modo como a visão adulta do cara sobre sua infância e adolescência conseguem ser bonitas sem descambar para a auto-comiseração e a vergonha-alheia e o fato de ele parecer jamais maquiar nada. Estou louca pra ter tempo de ler outra vez, me identifiquei horrores (shame, shame, shame).

Inglorious Basterds (Quentin Tarantino) - O roteiro original do filme vale pelas cenas que foram cortadas. Mas apesar de ter sido um dos melhores filmes de 2009, só li porque ganhei, não compraria.

A sangue frio (Truman Capote) - Uma amiga havia me recomendado esse livro há um bom tempo e outra amiga me emprestou. Esse eu não li, devorei. Gostei bastante, mas men.ti.ra que aquilo ali não tem uns dedinhos de ficção da parte do Capote e umas deduções sherlockeanas (talvez não tão precisas quanto as do inglês) pra cobrir buracos. Tipo, men.ti.ra.

Para Francisco, (Cris Guerra) - Eu já tinha lido o blog que inspirou o livro, mas este eu li numa fase de derrocada emocional feelings, quase morri. Não teve um só textinho que não tenha me dado nó na garganta, shame on me, viu.

O jogo do anjo (Carlos Ruiz Záfon) - Gosto da cadência de traduções do espanhol (q) e gosto do humor desse sujeito, mas ele tem aqueles genes Televisa que parecem se espalhar por quase todo o sangue hispânico que há no mundo. No primeiro livro dele (A sombra do vento), dá pra encarar os arroubos de drama só com umas caras de nojinho, mas n'O Jogo do anjo ele exagera. O livro me fez gargalhar muitas vezes (coisa difícil), mas falta ritmo, falta domínio temporal e no final o cara perde a mão totalmente. 

O leitor (Bernad Schlink) - Não é desgraçadamente ruim, mas peca pelo didatismo. Fiquem com o filme.

Nausicaä (Haiyao Myiazaki) - Estou lendo, estou lendo. É bem bonitinha, bem Myiazaki (gênio), traço competente, história interessante, mas preciso confessar que me dá um pouco de preguiça. Aí a leio muito aos pouquinhos. Mas não desgosto, não.

Breakdowns (Art Spiegelman) - Coletânea meio autobiográfica dos quadrinhos undergroud do autor do famoso MAUS. É um livro gigantesco, deve ter uns 50x30 e aí eu invento de ler no metrô, né. E vem uma história com uns desenhos bem realistas de uma mulher chupando o pau de um cara. As caras das pessoas de pé perto de mim, jamais me esquecerei. Mas me mantive firme (ui) na leitura. Gostei do livro, foi uma boa aquisição.

Socrates in love (nem quero saber quem cometeu isso) - Tenho vontade de mandar as pessoas que disseram que esse mangá era, ó, o supra-sumo das histórias de amor, à merda. Roteiro besta, clichê, previsível, personagens fracos, traço vagabundo, uma porcaria. Detestei, detestei, detestei e olha que super curto historinhas de gente no hospital pra morrer e tals.

Jimmy Corrigan - O menino mais esperto do mundo (Chris Ware) - Bem o tipo de quadrinho que divide opiniões: uns vão amar, outros vão achar pretensioso e a alguns vão dizer que é lixo. Eu fico no primeiro grupo, com um pezinho no segundo, mas nem posso falar muita coisa porque gosto desse negócio de experimentação de formatos. É meio como ler Ulysses em quadrinhos, mas menos WTF a partir do momento em que você pega o espírito da coisa. Se fosse para eu descrever numa só palavra, diria que é denso.

Capas na Areia (Neil Gaiman e Dave McKean) - Sempre que estou me sentindo uma merda e sem inspiração alguma, releio esse livro com as capas de Sandman comentadas. Sabe a parte boa de ficar bêbado, quando você se sente eufórico e a pessoa mais legal, promissora e esperta do mundo? Então, ler esse livro me causa esse efeito por algumas horas. Ainda preciso descobrir como prolongar esse tempo sem usar substâncias ilícitas.

Hoje acabei de ler Eensy Weensy Monster, da Masami Tsuda, autora de Karekano. É um mangá em duas edições, totalmente bobinho e desprentesioso, mas gostoso de ler. Adoro o modo como essa autora, assim como a moça que fez Fruits Basket, consegue ser profunda de um modo tão sutil que é quase imperceptível. Agora estou lendo Hiroshima, do John Hersey, que, depois do Capote, entrei nessas vibes de jornalismo literário. É um dos livros mais perturbadores que eu já li e ainda preciso ficar na frente de um espelho durante a leitura, porque eu devo fazer umas caras muito engraçadas.

E vamos ver se eu paro de gastar o que não tenho na Cultura, ao menos até acabar todos os outros livros que estão mofando lá na estante.
Tags: artes, epic fail, inr, literatura, nemli
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