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30 January 2011 @ 06:50 am
fuck yeah curso de retórica pro pessoal das internets  
Eu não entendo absolutamente nada de publicidade. Na verdade, quando vejo certas campanhas que são um desrespeito à (possível) inteligência do (propenso) consumidor, me sobem na garganta dois dedinhos de aversão à coisa. Quem trabalha com publicidade já carrega uma pecha, uma espécie de marca negra, da mesma forma que acontece com advogados e, sei lá, prostitutas. Aquele papo de todo de ó, os publicitários são uma engrenagem da indústria da mentira e da alienação blá blá blá, Whiskas sachê.

Semana passada um amigo postou no twitter o link do Fuck Yeah Diretor de Criação, um tumblr que elencava grandes nomes dessa área e dizia ceder um espaço democrático para que o pessoal que trabalha com publicidade pudesse compartilhar suas impressões acerca dos tais peixes grandes da criação.

Apesar da minha ignorância gritante do assunto, fui dar uma espiada, já que todo mundo estava comentando o negócio. Meu primeiro sinal de urticária mental se deu com a leitura da proposta do tumblr: extremamente pedante e mal-redigida, negócio, assim, de doer nas retinas e dentro da cabeça. Não posso falar de publicidade com conhecimento de causa, mas posso falar de redação, já que trabalho com texto; e, minha gente, qualquer um com atividade neuronial dentro da média sabe que pra se dar ao luxo de ser pedante, é preciso escrever muito, mas muito bem mesmo. Não era o caso do redator do cabeçalho, mas eu quero crer que o texto saiu aquela cagada porque a pessoa estava tentando disfarçar o próprio estilo pra que ninguém lhe descobrisse a identidade.

Só li um dos posts, do único publicitário que eu conhecia de nome. E não tinha chegado nem na metade dos comentários quando comecei a padecer de um mal que assola todo mundo que tem bom senso e usa a internet regularmente: a vergonha alheia aguda.

Pouquíssimos comentários eram concatenados e obedeciam à idéia do tumblr: falar sobre os profissionais de criação e de como eles se portam dentro de suas agências. Quase ninguém teve os colhões de usar login próprio. De resto, muita repetição, um show de horrores ortográficos, frases que pareciam ter saído dos cadernos de alguém que só cursou até a quarta série do fundamental e litros, enxurradas, niágaras do nosso conhecido ad hominem.

Vi muita gente lamentando o fim do blog, que só durou 24 horas. Pessoas dizendo que era uma ferramenta democrática, que todo mundo tem direito de expor sua opinião etc. Acho que esse pessoal confunde democracia com esculhambação. Certo, as críticas ao trabalho do sujeito estavam ali, mas a maior parte delas era entremeada de afirmações acerca da vida pessoal, marital e até higiênica do homem. Pessoal levou muito a sério o Faustão falando tanto sobre o pessoal quanto sobre o profissional. E quando o exemplo do Faustão é seguido num, erm, espaço democrático, a gente precisa começar a rezar para que as profecias maias sobre 2012 sejam verdadeiras. Trabalho é uma coisa, vida pessoal é outra. Vir com ad homimem numa discussão dessas é escalavrar qualquer possibilidade de crítica construtiva, de uma discussão racional. Me irrita profundamente esse negócio de nego confundir a pessoa com sua figura pública e achar que tá tudo num balaio só, porque não está. Você prefere se sentar com seu chefe e falar que, olha, eu achei que o você não deu o devido valor a tal coisa que eu fiz, gostaria que você analisasse a questão de tal e tal ângulo, porque isso e aquilo podem ter te escapado; ou você chega lá e diz que escuta aqui, seu arrombado pau no cu do caralho, cê jogou meu trabalho no lixo, mas não tô nem me fodendo porque tua mulher é uma quenga que faz gang bang com sete negões, não trepa contigo e tu fica aí nervosinho? E não é só porque a pessoa te chefia que você tem que saber mostrar seu ponto de vista de um modo, digamos, diplomático. Não é algo pra colocar em prática só com teu chefe pelo fato de ele poder te tirar o emprego se estiver com a cueca do avesso, é pra colocar em prática na vida. Educação, argumentação clara e bom senso sempre estiveram em voga, excetuando-se episódios pontuais como a Inquisição, a Revolução Francesa e a Revolta da Vacina.

Aliás, o grande problema nisso tudo é as pessoas acharem que estão lutando pela Comuna de Paris todos os dias de sua vida. Que é preciso ter uma opinião sobre tudo e que é preciso sair gritando essa opinião por aí. O que se revela fatal nessa idéia é que boa parte dos que resolvem botar a boca no mundo não tem condições de argumentar sequer com a mãe que trocou o amaciante por um de cheiro enjoado. Discutir em termos ofensivos não leva a lugar nenhum e de repente todo mundo vira uma cambada de colegiais cuspindo bolinhas de papel uns nos outros. Eu não sei quanto a vocês, mas uma discussão perde 90% do meu interesse quando veemência se torna violência e argumentação degenera em agressão pessoal. Ou, no termo corrente, trollagem. Quando eu quero ver sangue, ligo no UFC.

Não sou contra o uso do anonimato na internet, ainda mais num caso desses, em que ele se torna uma ferramenta de manutenção da imagem profissional num mercado que rola 60% na rede. Agora, se valer desse anonimato para escrever um monte de bobagem que não serve pra nada e só faz quem está lendo te tachar de babaca não é exercer seu direito à democracia. É ser patético.

O Fuck Yeah Diretor de Criação me ensinou que não importa que o criticado seja a pior pessoa do universo (tanto no pessoal quanto no profissional; não resisto a essa piada, gente, desculpa). Se essas críticas partirem de imbecis, o negócio vai bater e voltar. E aí não tem espaço democrático que aguente. 
 
 
Hoje eu acordei: boredbored
 
 
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moony_sensei[info]moony_sensei on January 31st, 2011 03:17 pm (UTC)
Isso me lembra muito a época de colégio, onde qualquer argumento, por mais bem elaborado que fosse, era destruído com "e você é um viadinho" ou "e daí, você é gorda" e por aí vai...
E o triste é que boa parte se satisfaz com isso.

Acho que ser democrático é também saber a hora de ficar calado. Porque, né, hoje em dia isso é quase um dom...

Sempre me fica a impressão de que essas trollagens vem de quem não se dá ao trabalho de ler ou prestar atenção no que acabou de ler, ou tem algum défict de atenção, ou é simplesmente um babaca.
ricardorosa[info]yatttto on February 15th, 2011 08:03 pm (UTC)
ah sim, a maioria é babaca. vide comentários no YouTube.

a verdade é que a internet liberou o exército de trolls, mas afinal, os trolls só tem efeito porque o pessoal se importa. bando de vaidosos hu hu hu
( 2 processos — Me processe )