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Shibboleth
26 February 2012 @ 06:16 pm
Pessoal;

Se ainda tem alguém que segue esse negócio aqui, estou migrando pro blogger. O livejournal está impraticável, a última atualização das ferramentas foi feita qando do nascimento da minha bisavó e de lá pra cá, só bug, miséria e ruína. Não vou dizer que é um blog novo porque vou levar umas velharias daqui e porque pretendo continuar o meme das cartas por lá. O novo endereço é http://nshibbo.blogspot.com/

Vamos estar atualizando os feeds, negada.
 
 
Hoje eu acordei: creativecreative
 
 
Shibboleth
Eu não entendo absolutamente nada de publicidade. Na verdade, quando vejo certas campanhas que são um desrespeito à (possível) inteligência do (propenso) consumidor, me sobem na garganta dois dedinhos de aversão à coisa. Quem trabalha com publicidade já carrega uma pecha, uma espécie de marca negra, da mesma forma que acontece com advogados e, sei lá, prostitutas. Aquele papo de todo de ó, os publicitários são uma engrenagem da indústria da mentira e da alienação blá blá blá, Whiskas sachê.

Semana passada um amigo postou no twitter o link do Fuck Yeah Diretor de Criação, um tumblr que elencava grandes nomes dessa área e dizia ceder um espaço democrático para que o pessoal que trabalha com publicidade pudesse compartilhar suas impressões acerca dos tais peixes grandes da criação.

Apesar da minha ignorância gritante do assunto, fui dar uma espiada, já que todo mundo estava comentando o negócio. Meu primeiro sinal de urticária mental se deu com a leitura da proposta do tumblr: extremamente pedante e mal-redigida, negócio, assim, de doer nas retinas e dentro da cabeça. Não posso falar de publicidade com conhecimento de causa, mas posso falar de redação, já que trabalho com texto; e, minha gente, qualquer um com atividade neuronial dentro da média sabe que pra se dar ao luxo de ser pedante, é preciso escrever muito, mas muito bem mesmo. Não era o caso do redator do cabeçalho, mas eu quero crer que o texto saiu aquela cagada porque a pessoa estava tentando disfarçar o próprio estilo pra que ninguém lhe descobrisse a identidade.

Só li um dos posts, do único publicitário que eu conhecia de nome. E não tinha chegado nem na metade dos comentários quando comecei a padecer de um mal que assola todo mundo que tem bom senso e usa a internet regularmente: a vergonha alheia aguda.

Pouquíssimos comentários eram concatenados e obedeciam à idéia do tumblr: falar sobre os profissionais de criação e de como eles se portam dentro de suas agências. Quase ninguém teve os colhões de usar login próprio. De resto, muita repetição, um show de horrores ortográficos, frases que pareciam ter saído dos cadernos de alguém que só cursou até a quarta série do fundamental e litros, enxurradas, niágaras do nosso conhecido ad hominem.

Vi muita gente lamentando o fim do blog, que só durou 24 horas. Pessoas dizendo que era uma ferramenta democrática, que todo mundo tem direito de expor sua opinião etc. Acho que esse pessoal confunde democracia com esculhambação. Certo, as críticas ao trabalho do sujeito estavam ali, mas a maior parte delas era entremeada de afirmações acerca da vida pessoal, marital e até higiênica do homem. Pessoal levou muito a sério o Faustão falando tanto sobre o pessoal quanto sobre o profissional. E quando o exemplo do Faustão é seguido num, erm, espaço democrático, a gente precisa começar a rezar para que as profecias maias sobre 2012 sejam verdadeiras. Trabalho é uma coisa, vida pessoal é outra. Vir com ad homimem numa discussão dessas é escalavrar qualquer possibilidade de crítica construtiva, de uma discussão racional. Me irrita profundamente esse negócio de nego confundir a pessoa com sua figura pública e achar que tá tudo num balaio só, porque não está. Você prefere se sentar com seu chefe e falar que, olha, eu achei que o você não deu o devido valor a tal coisa que eu fiz, gostaria que você analisasse a questão de tal e tal ângulo, porque isso e aquilo podem ter te escapado; ou você chega lá e diz que escuta aqui, seu arrombado pau no cu do caralho, cê jogou meu trabalho no lixo, mas não tô nem me fodendo porque tua mulher é uma quenga que faz gang bang com sete negões, não trepa contigo e tu fica aí nervosinho? E não é só porque a pessoa te chefia que você tem que saber mostrar seu ponto de vista de um modo, digamos, diplomático. Não é algo pra colocar em prática só com teu chefe pelo fato de ele poder te tirar o emprego se estiver com a cueca do avesso, é pra colocar em prática na vida. Educação, argumentação clara e bom senso sempre estiveram em voga, excetuando-se episódios pontuais como a Inquisição, a Revolução Francesa e a Revolta da Vacina.

Aliás, o grande problema nisso tudo é as pessoas acharem que estão lutando pela Comuna de Paris todos os dias de sua vida. Que é preciso ter uma opinião sobre tudo e que é preciso sair gritando essa opinião por aí. O que se revela fatal nessa idéia é que boa parte dos que resolvem botar a boca no mundo não tem condições de argumentar sequer com a mãe que trocou o amaciante por um de cheiro enjoado. Discutir em termos ofensivos não leva a lugar nenhum e de repente todo mundo vira uma cambada de colegiais cuspindo bolinhas de papel uns nos outros. Eu não sei quanto a vocês, mas uma discussão perde 90% do meu interesse quando veemência se torna violência e argumentação degenera em agressão pessoal. Ou, no termo corrente, trollagem. Quando eu quero ver sangue, ligo no UFC.

Não sou contra o uso do anonimato na internet, ainda mais num caso desses, em que ele se torna uma ferramenta de manutenção da imagem profissional num mercado que rola 60% na rede. Agora, se valer desse anonimato para escrever um monte de bobagem que não serve pra nada e só faz quem está lendo te tachar de babaca não é exercer seu direito à democracia. É ser patético.

O Fuck Yeah Diretor de Criação me ensinou que não importa que o criticado seja a pior pessoa do universo (tanto no pessoal quanto no profissional; não resisto a essa piada, gente, desculpa). Se essas críticas partirem de imbecis, o negócio vai bater e voltar. E aí não tem espaço democrático que aguente. 
 
 
Hoje eu acordei: boredbored
 
 
Shibboleth
08 December 2010 @ 03:37 pm
Na época do ensino médio, eu tinha um amigo chamado Marco Léon. E não bastando esse nome ridículo, o Léon ainda fazia questão de ser a xumbregice encarnada num corpo humano. Bonitinho, bom de lábia, pegava todas as meninas do colégio, um verdadeiro latin lover, com direito a cavanhaque e camisa aberta pra mostrar o peito. E era doido. Doido de pai e mãe. Pra quem passou por aquelas bad vibes da adolescência de entrar em grupos de RPG, uma coordenada: em Vampiro, o Leon era um malkaviano. E na vida real, também. Vivia se metendo nas confusões mais inacreditáveis e ninguém ficaria espantado se o corpo dele aparecesse no IML.

Eis que Léon, para espanto geral, arrumou uma namorada séria. Eu não lembro nada da menina, a não ser que ela bem bonita e muito tímida. Meses e meses de amor eterno, amor verdadeiro depois, caiu no colo do Léon um belo dum par de chifres. Um sujeito bombadinho, daqueles que usam camisa mamãe-tô-forte e que, diga-se, era amigo do Léon, foi lá e comeu a namorada dele.

O que o Léon ia fazer? O outro cara era gigantesco, músculos certamente delineados por bomba pra cavalo, mas que poderiam partir o meu amigo franzino com duas chuletadas. Só que o Léon, como eu já disse, era doido de tacar pedra.

Ele chamou o cara pra beber. Pagou tudo, cerveja, vinho, cachaça, whisky e o escambau. Só que enquanto o cara enchia o rabo de pinga, o Léon só fingia beber. Quando o rapaz já tava no que nós chamávamos de Morrison state (ou seja, vendo índio por aí), ele deu mei que uma desmaiada em cima da mesa e o Léon me tirou, sei lá eu de onde, dois ovos e separou a gema da clara; a primeira ele jogou fora e a segunda ele derramou cuidadosamente nos fundilhos do brutamontes. Quando o cara acordou, o Léon, todo contrito, avisou pra ele que um travesti lhe havia, bom, comido o cu.

O cara nem parou pra pensar em verossimilhança e ficou maluco. Chorou, chamou a mãe, Deus, Jesus, todo mundo, entrou num desespero de dar dó. E o meu amigo deixou que ele sofresse três dias com a falsa defloração anal pra só depois contar a verdade. Eu pensei que o cara ia arregaçar as fuças do Léon, mas não: ele chorou de novo e pediu desculpas por ter comido a (nessa altura, ex-) namorada do latin lover.

Lição pra vida.
 
 
Hoje eu acordei: anxiousanxious
Ouvindo: Progenies of the great apocalypse - Dimmu Burg... ops Borgir
 
 
Shibboleth
16 September 2010 @ 10:09 am
As pessoas me contam essas cronicazinhas no msn e eu deixo passar. Mas essa aqui, que um amigo me falou, me soou tanto como um A insustentável leveza do ser redux que precisei guardar pra nunca esquecer.

Pai da amiga dele foi no açougue e pediu um quilo de carne moída separada em dois pacotes de quinhentos gramas. O funcionário do açougue se vira pra ele na maior grosseria e pergunta se ele não viu a fila de clientes para serem atendidos, se ele não tem mais o que fazer e mais um monte de impropérios que devem assustar quando você está falando com um sujeito vestido de branco, todo sujo de sangue e com um puta cutelo na mão. O pai da menina diz, então, que vai querer só meio quilo. Quando o balconista se volta com o pacote e pergunta o típico "mais alguma coisa?", o pai, na maior naturalidade do universo, responde:

— Sim. Mais meio quilo, por favor.

Fazendo cosplay de Gandhi, minha gente. Leveza de espírito define.


 
 
Hoje eu acordei: busybusy
Ouvindo: Fallin' & Flyin' - O delicioso Jeff Bridges
 
 
Shibboleth
Primeiro, gostaria de deixar aqui em registro formal para a posteridade que se eu não sou a pessoa mais imbecil que já colocou os pezinhos nesta terra de fontes murmurantes, estou ali, ó, pau a pau com os demais concorrentes. Vinte e dois anos de treinamento árduo e ininterrupto no intuito de ser metaforicamente acéfala, quero só ver nego me superar.

As criaturas infelizes que certo dia resolveram se tornar minhas amigas sabem: eu não estou passando pela melhor fase da minha vida. Estou chata, estou total e completamente intragável. Estou, assim, uma garrafa de vodka Balalaika: tão ruim, tão vagabunda, que você nem chega a ficar bêbado, passa direto para o estado de ressaca-sem-fim. Daí que essa fase está vindo acompanhada de um pendor para fazer burrada, falar merda e permitir que todo tipo de porcaria faça parte do meu cotidiano e isso não é legal. Isso, claro, porque eu deveria ter incluído na minha lista de coisas-não-salutares-a-fazer o ato de me embebedar até a completa amnésia, mas não. Eu estou sendo uma imbecil enquanto sóbria, de forma que não me sobra nem uma justificativazinha escapista que seja.

Vocês devem conhecer o conceito de vergonha alheia: é aquilo que você sente quando o Conrado e o Fábio Júnior resolvem duetar uma música do Renato Russo usando ternos brancos com ombreiras no palco do Gugu. Você olha aquele negócio, você não tem parte cósmica naquele acontecimento doloroso, mas ainda assim vem um aperto no peito, uma coisa ruim e você precisa desviar os olhos da TV. Pior que isso, só a vergonha-alheia-própria: sabe quando você fala pra si mesmo que está fazendo besteira, que aquilo é ridículo, mas vai lá e faz do mesmo jeito? Tipo armar um escândalo homérico porque alguém tirou os seus livros da ordem alfabética/de cor/seja lá o que seu TOC recomenda em que eles estavam e depois se arrepender amargamente, porque você poderia ter guardado a gritaria para uma causa mais justa. Isso é vergonha-alheia-própria. Essa é a sua consciência exigindo divórcio com comunhão universal de bens.

Então. Eu senti vergonha-alheia-própria em grandes proporções três vezes na minha vida. Como saber se é caso de grandes proporções? Simples: toda vez que você se lembra do que fez, um arrepio percorre a sua espinha, você estreita os olhos e faz cara de quem chupou limão, sacode um pouquinho a cabeça e tenta pensar em outra coisa, qualquer outra coisa, como unicórnios minúsculos cagando arco-íris. Outro sintoma típico é uma vontade irresistível de bater a cabeça em qualquer superfície plana em busca de sangramento ou perda dos sentidos, o que rolar primeiro. Isso você obviamente não faz, porque seria motivo para uma crise futura de vergonha-alheia-própria aguda, e esse negócio só é aconselhável a intervalos de seis meses.

Minha primeira crise de vergonha-alheia-própria-aguda foi em 2008. A segunda, em julho passado. A terceira foi há uns poucos dias atrás. Passei o dia com vontade me dar umas mordidas, uns sopapos e de ficar metendo a testa na parede por muitas horas consecutivas. Ainda estou tendo os arrepios e essa cara de desgosto da vida não vai se desfazer nem com botox. Eu não vou dizer o que aconteceu porque estou escrevendo esse post para contar uma coisa mais humilhante ainda: motivada pelos recentes acontecimentos, pelo fato de que ninguém com quem eu conviva me suporta mais e porque eu sou muito sem noção, eu cheguei ao ápice da minha fase ruim e comprei um livro de auto-ajuda.

Não consigo parar de ouvir o Jim Morrison martelando na minha cabeça que It's the end e não posso deixar de imaginar que ele tenha razão. O pior do livro de auto-ajuda não é eu mesma saber que ter comprado um negócio desses é o cúmulo da falta de dignidade, porque a coisa mais fácil do mundo é entrar em negação quando se está fazendo merda. O grande ponto é ter que ficar escondendo o livro de todo mundo que me conhece, ter que ler tentando esconder a capa, para que ninguém saque o que é aquilo. Mas se chegam e vêem por cima, não tem como esconder: a quantidade absurda de subtítulos por página não nega, este é um livro para imbecis e olha só aquela coisinha minúscula passando por baixo da porta! Era a última réstia positiva da minha auto-imagem.

[Texto originalmente postado em 13 de abril de 2010, no meu outro blog, récem-falecido.]
 
 
Hoje eu acordei: complacentcomplacent
Ouvindo: To love is to bury - Cowboy Junkies
 
 
Shibboleth
30 April 2010 @ 03:28 pm
A pior dificuldade advinda do fato de se morar sozinha é a de não ter um homem que mate as baratas. Todo mundo sabe que as quatro funções masculinas básicas são procriar, deixar a toalha molhada em cima da cama, não abaixar a tampa da privada e matar baratas. Tinham me dito que o maldito lugar era dedetizado, que nem formiga apareceria, mas, né, vem a chuva e olha as amiguinhas dando tchauzinho com as antenas.

Eu herdei o medo doentio de baratas da minha mãe. O mesmo não se deu com a minha irmã, que mata qualquer baratão de chuva numa boa, mas, em contrapartida, morre de medo de grilo. Enquanto eu mato cem grilos, gafanhotos, pragas egípcias que sejam pra não chegar perto dessas malditas que nem as bombas nucleares dizimarão. Daí que eu estava no telefone por horas e, como o celular estava carregando, precisei ir pra perto da tomada. Taquei meu edredon no chão, afinal de contas, pra que eu passei mais de duas horas limpando esse pardieiro ontem? Sentei em cima e fiquei lá, tagarelando por tempos sem fim. Então eu preciso citar pra pessoa do outro lado da linha que no livro que eu estava lendo no feriado havia um parágrafo que havia sido escrito pra ela. Acendo a luz pra procurar o livro e lá. Está. Ela.

Cabe aqui uma digressão para dizer que eu acho que já tinha visto essa barata antes. Só que nesse dia eu não estava muito certa da posse das minhas faculdades mentais, então entoei um mantra que me dizia que não era barata, era sombra, era uma aura negra, era qualquer coisinha escura nas minhas vistas e deu certo, porque negação é uma arte.

Voltando ao thriller, paraliso e paro de falar ao telefone. Dou umas três chineladas que erram o maldito alvo móvel e resolvo avisar à minha interlocutora do alerta vermelho e que não vai rolar de conversar e iniciar o genocídio-de-uma-nota-só. Porque nessas horas a gente tem que ser macha, certo? Se fosse de dia eu saía correndo e ia procurar um dos meus primos pra fazer o trabalho de homem, mas a uma e meia da manhã uma mulher independente e madura (not) não faz um papelão desses. Desligo o telefone, mas nesse meio tempo ela se escondeu entre a parede e o pé da cama (e eu agradeço, agradeço a todos os deuses do mundo por ter arrumado o quarto ontem, porque se eu tivesse que caçar a barata na zona que prevalecia, hahaha, eu ia dormir na rua, na chuva, na fazenda e a barata podia descansar feliz na minha casinha de sapê). Arrastei a cama e ela veio correndo na minha direção, que as desgraçadas tem um puta GPS que só funciona com quem elas sabem que tem medo. É que nem cachorro, a gente deve excretar alguma substância que faz com que elas saibam que estamos com os joelhos trêmulos só de olhar aquelas centenas de pernas cabeludas. Ratei uma vez, mas na segunda meti o chinelo bem em cima dela. Aí bateu aquela dúvida acerca de baratas terem ou não exoesqueleto. Três segundos depois cheguei à conclusão de que, se são insetos, têm, sim e fiquei repisando o chinelo com os dois pés, dando uns pulinhos em cima dele e todo um ritual macabro de balé do assassino e tals. Próximo passo, lógico, foi ligar o telefone de novo e dizer pra Tati que eu matei a barata, que eu sou meio que a cruza da Sarah Connor com a Lara Croft, que como assim que nenhuma das forças especiais do mundo está atrás do meu passe, que eu tô tão fera no krav magá de barata que alguém deveria me dar uma medalha, colocar meu nome numa placa. Desliguei, pulei mais um tiquinho em cima do chinelo, só pra não dar moleza pro exoesqueleto alheio e aí tem início outro drama: deixo o chinelo em cima do corpo até amanhã, tiro na hora que for sair de casa e quando voltar já terei esquecido? Não ia funcionar, porque além de feder, a cena do crime estava ao lado da cama e super seria do meu feitio acordar, chutar o chinelo e enfiar o pé na gosmeleca. Encaro o chinelo, o chinelo me encara e eu resolvo pegar um rodo pra efetuar a operação porque E SE ELA SAI CORRENDO DE NOVO? Essas coisas meio que nunca morrem e tals. Cuidadosamente, pego as correinhas do chinelo com o cabo do rodo e a barata está grudada, desfeita, dizimada contra o meu solado. Pego a nojeira com a pontinha dos dedos, levo até a privada e sacudo a danada lá dentro, mas fica toda uma gosma e antena e partes corporais ainda no meu chinelo e minhas palavras proferidas nesse momento deveriam ficar na história da aleatoriedade humana: "Mas que nojeira, eca, eca, eca, PORRA, CLARICE LISPECTOR!". Da série piadas-prontas-literárias-muito-ruins.

Aí voltei pro quarto e todas as coisas escuras me assustaram e me deram arrepios e eu dei dois gritinhos gays, um roçando no cadarço de uma bota e outro vendo a minha própria sombra no chão. Também saltei como uma campeã olímpica pra cima da cama porque passei o pé (descalço, que o chinelo agora jaz numa bacia cheia de água sanitária e desinfetante - assim como o local em que a barata veio a falecer) num pedacinho de plástico que estava no chão.

Um adendo para contar rapidamente da única vez que eu tinha matado uma barata antes: eu tinha uns 11 anos e estava sozinha em casa. Ela veio alokaê voando, caiu no chão e eu saí correndo pra área de serviço, peguei um balde e coloquei em cima dela. Depois, com uma daquelas facas descomunais de cortar carne de churrasco, fiz um buraco no alto do balde e taquei todos os produtos de limpeza que tinha em casa lá dentro. Digno de Jack Bauer, né? Minha mãe, por algum motivo que ME É OBSCURO, ficou puta da vida, mesmo ela ficando histérica com a existência desses bichos asquerosos. Os pais não sabem reconhecer a genialidade nos filhos, viu, triste isso.

Mas, ai, tô muito orgulhosa de mim, apesar de agora pensar que tem um ninho de baratas em algum lugar da minha morada e saber que nunca mais eu vou dormir direito. Te cuida Schwarzenegger, que aqui é muita masculidade no lance, viu?

(Mas se aparecer outra barata eu acho que eu choro).
 
 
Hoje eu acordei: bitchybitchy
Ouvindo: Jesus Negão - Libera o Badaró
 
 
Shibboleth
14 April 2010 @ 11:01 am
O escritório em que eu trabalho mudou de endereço e eu passei a fazer metade do meu trajeto matinal via linha vermelha do metrô. E tipo que eu era uma pessoa feliz na linha azul e não sabia. Uma boa analogia para exemplificar a idéia da linha vermelha é a de se ir para o meio da rodinha mosh pit de um show de blackmetal. A linha vermelha é a prova de que dois corpos ocupam, sim, o mesmo lugar no espaço. Tenho certeza de que um dos pontos finais é Dachau e o outro é Auschwitz. É toda uma experiência involuntária de se entregar ao calor humano do próximo que, puta que me pariu, está excessivamente próximo de você. Não vou passar incólume por essa, vou quebrar uma costela, fraturar o dedinho ou, tragédia, o empurra-empurra vai me fazer cair dentro do vão bem na hora em que o trem estiver chegando. Guardem minhas palavras. 

Mas a melhor parte é que no meu trajeto de debut eu só conseguia pensar em versos de We are the world e fiquei rindo que nem uma retardada até chegar à minha estação. Fato é que desgraça por desgraça, ao menos eu sou uma pessoa que precisa de muito, mas muito pouco para se divertir sozinha.
 
 
Hoje eu acordei: hopefulhopeful
Ouvindo: Tha asshole song - jude
 
 
Shibboleth
24 March 2010 @ 11:04 am
Lendo "Mensagem", de Fernando Pessoa, me lembrei de que quando eu estava na quinta série, a escola na qual eu estudava mudou o material didático e passou a usar o sistema Positivo, cujos livros vinham com um cd-rom, na época que isso era bafão tecnológico. No disco do livro de literatura tinha uma animaçãozinha para Mar Português, com um gajinho vestido de explorador luso a declamar o poema com o sotaque da terrinha, enquanto, ao fundo, ouvia-se o barulho de ondas. Foi o primeiro poema "adulto" que eu aprendi de cor, de tanto assistir ao desenho uma vez atrás da outra.

quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!


Suponho que os portugueses tenham chorado até a desidratação na costa de Pernambuco, principalmente ali pelas bandas de Porto de Galinhas. Não entendo nada de salinização marinha, ou seja lá como isso se chame isso, mas morei por muitos anos no nordeste, conheci praias até enjoar (literalmente - hoje tenho uma preguiça mortal do negócio e fico pensando em quão bêbada eu precisaria estar para achar que a mistura de sal, sol, água e areia é uma boa idéia) e não tem quem me faça tirar da cabeça que o mar de Porto de Galinhas é o mais salgado em que eu já coloquei os pés.

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.


Não só os pés, porque molhando somente os pés não é passível de haver drama e não havendo drama, senhoras e senhores, não é a minha vida. Então estou eu lá naquela praia linda, águas transparentes, toda deslumbrada, apesar de mal conseguir abrir os olhos devido ao absurdo de sal já citado. Não sei se foram meus tenros doze anos sedentos de aventura, se foi caso de insanidade temporária ou só a burrice intrínseca do meu ser catalisada pela brisa marítima. O fato é que não me bastando estar cega de sal, resolvi subir numa pedra gigantesca que, como todas as outras porcarias das pedras de praia do universo, estava coberta de limo de cima a baixo e não é preciso dizer que foi só colocar os dois pés sobre ela para sair derrapando na direção da água. É muito lógico deduzir que, dada a minha sorte, eu não fui escorregando direto até o mar, mas me estabaquei na pedra antes disso e, claro, Murphy, claro, ralei metade da bunda escoriei com gravidade um músculo glúteo. Para, em seguida, cair dentro da fucking água mais salgada do universo, perdendo apenas para o Mar Morto.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.


Praia pra mim tem que ser de manhãzinha ou no final da tarde e banho de mar, só nos pés. Prefiro ficar de longe, olhando o espelho do céu, mas sem precisar meu arriscar ao perigo e ao abismo.
 
 
Hoje eu acordei: indescribableindescribable
Ouvindo: Après moi - Regina Spektor
 
 
Shibboleth
Eu sou a neta mais velha da casa da minha avó materna e por muitos anos só tive primos meninos. E eram uns moleques muito dos nojentos. Cheios de não-me-toques e nove horas pra poder brincar,  toda uma constituição dos jogos infantis em voga nos quintais gigantescos da casa que minha mãe alugava de uma tia-avó. E esses primos, ajudados por alguns meninos que moravam lá na rua, me presentearam com dois dos meus maiores traumas de infância numa só tarde de domingo.

Primeiro, o almoço de família. Eu morava com interiorrrzão de Minas, sô, e nesse dia ia rolar toda uma parentada para a refeição dominical. A família da minha mãe se divide entre militares e gente da roça, com uma intersecção de pessoas que saíram da roça para se tornarem militares. Assim, tinha muito churrasco, muita lingüiça, muita galinhada e muito bucho, que a menininha delicada que eu era naquela época chamava de dobradinha, morrendo de nojo só de cogitar o negócio no plano das idéias. Bucho, caso haja quem não saiba, é meio que a parte de dentro do estômago do boi, se parece com um pedaço de carne albina cheio de casinhas de abelha, é mais borrachudo que pneu e tem o cheiro que super exemplifica o enxofre dos dos círculos mais profundos no inferno. E, ao menos em Minas, velhinhas andam pela rua vendendo bucho acondicionado em latões de óleo. Todo um ritual de nojeira.

Naquele almoço tinha um tacho enorme de bucho e enquanto eu revirava os olhos para aquela coisa amorfa em cima da mesa, meus primos, aqueles engomadinhos insuportáveis, aqueles bostinhas com o cabelinho partido de lado com gel, usando suas roupinhas da Tigor T. Tigre me começam a comer dobradinha como quem está enchendo a cara de maná. Devo ter feito o maior carão de choque explícito, porque em dois minutos a mesa inteira estava me olhando e perguntando o que era e como assim que eu não comia bucho, era um absurdo, ovelha negra da família feelings. E meus primos rindo e perpetrando altos bullyings em torno do fato de eu não ter coragem de colocar aquela merda na boca. Eu tinha só sete aninhos, a pressão foi grande demais para a minha pequena pessoa e num esforço sobre-humano, comi bem uns três, quatro pedaços da dobradinha. Deve ser por isso que hoje a socialização não é meu forte, vejam só a severidade dos testes aplicados a uma criança para se obter a aprovação familiar. A gente não passa incólume por essas coisas. E olha que eu nem vomitei, engoli meio inteiro, mas engoli. Mas sabem que valeu só pra ver as caras de Draco Malfoy dos meninos?

Depois do almoço, a brincadeira vespertina no quintal, que tinha um pomar. Ocorre que o pai dos primos em questão tinha, na época, um sítio, e trouxe de lá esterco para adubar as árvores. Eu tentei por tudo convencer o pessoal a jogar uma partida amiga de banco imobiliário, mas a brincadeira da moda era Power Rangers. Só que naquele dia os meninos cismaram que não ia rolar o Megazord porque hype mesmo era Cavaleiros do Zodíaco (e se você fala Sant seiya, você é o uó, dica). Eu passei muitas horas da minha vida vendo Cavaleiros do Zodíaco na extinta Manchete e formando meu caráter com o que de pior havia: o pau-no-cu do Ikki, a bicha do Shun, o Hyoga todo trabalhado no complexo de Édipo, o poser do Shiryu e o Seiya... bom, o Seiya era errado, assim, em si mesmo. Só quem assistia para entender. Mas da história do desenho eu só me lembro dos arquétipos e de ter chorado de forma histérica no episódio em que o cavaleiro de dragão (preferido de dez entre dez meninas) ficou cego. Acabam de me informar que ele ficou cego bem umas três vezes ao longo da história e daí vocês podem concluir que se meu inconsciente preferiu camuflar essas lembranças, é porque ele sabe o que faz. Trabalhando em prol da pouca sanidade angariada por todos esses anos.

Eu até tinha os bonequinhos de todos os cavaleiros de bronze e originais, da Bandai. Daria uma grana vendê-los hoje no Mercado Livre, se eu não tivesse dilapidado cada pecinha das armaduras e rabiscado todos os rostos de canetinha hidrocor. Mas, voltando, meus primos e mais uns meninos lá da rua resolveram que iam brincar de cavaleiros e eu disse que por mim tudo bem, desde que eu pudesse ser o Ikki. Breve explicação para leigos sobre o personagem: o Ikki é irmão mais velho do Shun, que é uma bicha louca inspourtável medrosa cheia de gritinhos e pulinhos. O Shun foi escalado para treinar na Ilha da Rainha da Morte (sintam o drama) e o Ikki sacou que a passivinha de armadura cor-de-rosa não ia aguentar com o rojão e foi no lugar dele. A tal ilha só serve para infligir dor e sofrimento a quem lá treina, então Ikki voltou mau, amargo e com as trevas a corromper seu coração. Trocando em miúdos, ele era o filho da puta do grupo e OBVIAMENTE era meu preferido, exemplo de vida e essas coisa tudo. Daí meus primos me olham com cara de aham, Cláudia, senta lá e eu, julgando que eles não queriam brincar com o Ikki, inicio todo um discurso pró cavaleiro de fênix, mas eles nem me deixam fazer a defesa do rapaz e avisam o que deveria ser óbvio: eu era menina. Logo, ia ser a Saori. Explanação: Saori é a mocinha da história, reencarnação da deusa Atena - sim, é toda uma miscelânea de astrologia com mitologia plus roteiro non sequitur - e personagem feminina mais chata de que já se teve notícia na história dos desenhos japoneses. Me recusei. Bati o pé. Como assim que eu não podia ser o Ikki, mas podia ser a Saori? O ponto é que era eu contra uns oito meninos e eu nunca fui boa nesse lance de sedução do sexo oposto. Resultado: se dividiram lá entre cavaleiros e espectros, me colocaram em cima do pé de manga e ficaram bem umas duas horas fazendo lutinha pra me resgatar. Aí o escroto do meu primo que era o Seiya (Seiya = líder), resolveu que tinha ganhado, me disse pra descer e meu colocou dentro de um carrinho de mão. É. Segunda humilhação do dia. E lá vou eu, sendo levada pelo cortejo de cavaleiros vencedores, mas como desgraça pouca é bobagem, tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra. Jamais me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas: o carrinho virou e eu caí onde? ONDE, HEIN? Sim, meus caros, no monte de esterco fresco pra adubar as plantas. Que infância feliz: a pessoa come bucho, depois é oprimida pelo machismo social para, em seguida, cair na merda. Triste. Trágico. Cadê mano Sófocles para escrever uma tragédia, quando a gente precisa dele?

Pensando agora, me ocorrem duas coisas: eu tenho a memória mais absurda para acontecimentos da minha infância, mas pra saber o que me disseram cinco minutos atrás que é bom, necas. E essa história é tipo que uma metáfora para a minha vida. Licença que eu vou ali virar o Mestre do Mal e já volto. 
 
 
Hoje eu acordei: contemplativecontemplative
Ouvindo: In the mood - The Puppini Sisters